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Sobre as Mulheres Queimadas com Acido

• 2224 dias astrás

Ultimamente o facebook anda bombardeado de fotos de mulheres queimadas por ácido. Isso me fez pensar sobre o relativismo cultural.

Lembro de um episódio interessante. Minha filha, Sophia, tinha uma babá alemã, recém chegada de lá. Uma vez ela demonstrou, polida mas mal disfarçadamente, uma grande estranheza com as minhas brincadeiras de morder a Sophia.

Não mordo de verdade. Corro atrás dela dizendo que vou morder o bebê fofo, e quando a alcanço faço cócegas com a boca na barriguinha. Ela rí um monte!

O que pode causar estranheza numa brincadeira tão inocente? Oras, se a gente observar de fora, não faz mesmo o menor sentido associar fofura com mordidas. E fazer uma brincadeira carinhosa usando algo que machuca, que é violento??? Como assim??????

Claro que continuo fazendo a brincadeira. Ela está suficientemente inserida no contexto cultural meu e da Sophia para que a gente se divirta e para que ela perceba isso como uma demonstração de carinho.

Mas a babá tinha toda a razão em estranhar.

A verdade é que só conseguimos efetivamente entender uma cultura quando estamos plenamente inseridos nela.

Volto, então, para o caso das mulheres queimadas. É uma violência terrível, injustificável. Será que temos o direito de interferir? Será que temos o direito de NÂO interferir?

A moral pode ser definida como "aquele comportamento que causa bem-estar ou previne o mal-estar do outro", e isso insere a subjetividade. Aquelas mulheres, segundo o sistema de crenças deles, causaram o mal-estar do outro. Infligiram alguma regra que para eles é importante e faz sentido. Eles provavelmente não vêm aquela ação como causar o mal a elas, mas como uma punição justa e merecida.

Os conceitos de certo e errado não existem fora da cultura humana. Assim, não posso qualificar esses atos abstraída de minha própria cultura.

Julgar desta forma é como condenar um prisioneiro indígena pelas leis da Eslováquia. Simplesmente não faz o menor sentido.

Assim, eu me choco com essa violência - e com tantas outras. Sinto vontade de tirá-las de lá, de mostrar que elas não precisam passar por isso, que é errado, absurdo e sem sentido.

Mas não me sinto no direito de interferir. Não por ter dúvidas sobre o erro da coisa - não tenho nenhuma. Mas por saber que essa minha certeza não cabe lá.
 
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Por: Paula Moiana da Costa | www.afilosofia.com.br | pmoicosta2@hotmail.com | Imagem: 2.bp.blogspot.com

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